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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Aparelho prorprioceptivo Rollover (Inventor: João Justino Leite Filho)

Do circo para os hospitais
Inspirado no picadeiro, aparelho ajuda na recuperação de movimentos

Juliane Zaché

André Sarmento
Com o auxílio do equipamento, o jogador Leandro está melhorando da lesão no joelho

Quem não se lembra do palhaço andando sobre um cilindro no circo? Essa cena que encantou e continua hipnotizando milhares de crianças também está despertando a atenção dos fisioterapeutas. O equipamento lúdico usado no circo se sofisticou e ganhou o nome de roll over e uma nova função: tratar pacientes com problemas nos membros inferiores, como torção no pé ou dor no joelho. Para topar esse desafio, basta se equilibrar em cima do aparelho. A idéia foi aprovada pelo Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo, centro médico renomado, e o aparelho acaba de aportar por lá. “Quando o paciente opera o joelho, tem receio de andar. Com o roll over, ele treina o equilíbrio e a coordenação motora para voltar a caminhar com segurança”, explica Perola Grinberg Papler, fisiatra do Instituto de Ortopedia e Traumatologia da instituição.

O próximo passo do HC é fazer testes para saber o grau de melhora proporcionado pelo equipamento. O autor dessa engenhoca ficou surpreso com a repercussão de sua invenção. Preocupado em trabalhar a postura de seus alunos, o ator e professor de canto João Justino Leite Filho estimulava-os a se equilibrarem em cima dos tambores. “A postura ereta mantém o diafragma livre e a voz sai perfeita”, justifica. Porém, como o tambor ocupa muito espaço, ele criou o roll over à base de PVC. Durante as apresentações de seu grupo, o cilindro fisgou os médicos. Vários centros particulares de fisioterapia de São Paulo e do Rio estão adotando o aparelho. O Instituto Cohen de Ortopedia, na capital paulista, usa a criatividade para adaptá-lo às aulas de fisioterapia. O treinamento é feito na piscina. “Dessa forma, evita-se o risco de o paciente cair e se machucar”, explica Maurício Garcia, fisioterapeuta do instituto.

O roll over vem ajudando pacientes como Leandro da Silva, 27 anos, jogador do Juventus, de São Paulo. Há um mês e meio, ele sofreu uma contusão no joelho direito durante um jogo. Precisou fazer uma cirurgia para recuperar a região e logo depois passou a fazer o tratamento. “O equipamento melhora a estabilidade do meu joelho”, conta. As peripécias do roll over não se limitam apenas às salas médicas. As sapatilhas das bailarinas da Escola de Dança Alice Arja, do Rio, também estão dançando no aparelho. “É como se fosse um teste no qual as articulações enfrentam obstáculos para depois se adaptarem com facilidade ao palco”, compara Marcelo Silva Duarte, fisioterapeuta da Universidade do Grande Rio, em Duque de Caxias.

Invenção à gaúcha

Outras técnicas de fisioterapia mais conhecidas também estão dando resultados. Uma das boas notícias vem do Sul do País. Em Curitiba, os irmãos Denise e Percy Nohama aliaram os métodos dessa especialidade com a engenharia biomédica para reabilitar paraplégicos e tetraplégicos.

Dessa união foi construído um aparelho que recupera funções perdidas, como se alimentar sozinho, chamado de estimulador elétrico neuromuscular. Ele permite, por meio de eletrodos colocados na cabeça dos doentes, estimular determinados neurônios e músculos. “Nas duas formas de paralisia, o paciente sofre uma lesão na medula. Porém, é possível reabilitar uma parte das funções”, informa Percy Nohama, engenheiro biomédico da PUC de Curitiba. Depois de quatro anos utilizando o equipamento, eles estão satisfeitos. “Obviamente que depende do estado do paciente, mas quando dá certo é um grande progresso.”

Fonte: http://www.terra.com.br/istoe/1618/medicina/1618circo_hospitais.htm

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Novas regras para o parto humanizado


Anvisa decidiu humanizar os partos na rede pública de saúde. A idéia é reduzir o número de cesarianas e aumentar o contato da mãe com o bebê



Grávida, a dona-de-casa Miriene Silva não agüenta mais esperar. “Agora que está chegando mais perto, meu coração está acelerado! Tenho ansiedade para ver o rosto dela”, conta a mãe, que diz ainda rezar para tudo dar certo. A filha Alice deve nascer de cesárea, o método mais usado nos hospitais de todo o país.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Anvisa, decidiu tornar o parto mais humanizado: reuniu uma série de normas e vai cobrar que hospitais públicos, particulares e clínicas mudem a rotina da maternidade dentro de seis meses. O primeiro cuidado: ao nascer, o bebê deve ir direto para o colo da mãe. A dona-de-casa Vanessa da Silva passou por isso na época em que teve seu filho. “Quando ele nasceu e colocaram o bebê em cima de mim, eu chorei!”, lembra Vanessa.
Outra recomendação é amamentar logo depois do parto. Para bebês prematuros, o método canguru é indicado: o bebê deve passar dia e noite agarrado à mãe para ganhar peso. É o que acontece com Abel, filho da estudante Carlene Rodrigues, que nasceu de seis meses. “Estou dando muita proteção para o meu filho”, diz a mãe. Se não houver restrições médicas, as mulheres vão poder escolher até a posição do parto: de cócoras, na água ou deitada. A futura mãe também pode convidar quem quiser como acompanhante, para assistir ao nascimento da criança.
A Anvisa também quer mudanças nos leitos: sugere que os quartos sejam planejados para acomodar apenas duas mães. “No meio desses dois leitos deve ser colocada uma cortina ou alguma coisa para garantir a privacidade”, completa Regina Barcellos, gerente de serviço de saúde da Anvisa.

Parto normal ou cesariana?
No Hospital Maternidade de Nova Friburgo nascem em média 150 crianças por mês, 70% do total dos nascimentos do município. A maternidade é ainda referência na região e atende a pacientes de outras 11 cidades. Do total de partos, 65% são naturais e 35% por cesarianas. O Ministério da Saúde definiu que a quantidade de cesáreas não deve ultrapassar 27,5% do total dos nascimentos nos hospitais. Segundo o diretor geral da maternidade, Ostwald dos Santos Filho, enquanto o sistema de pagamentos dos partos por parte dos convênios médicos não for alterado, a quantidade de cesarianas na rede particular não irá diminuir. “Ganha-se hoje por produção. Os planos de saúde pagam R$ 275 ao médico por parto. Em uma evolução normal de parto natural, desde as primeiras contrações o médico espera 8h, 12h, 16h e até 18h para o momento do nascimento. Já em uma cesariana o médico marca a operação e define o momento do parto, não sendo necessária a espera do demorado processo natural”, explica o médico.
“Para resolver isso, tinha que acabar com esse negócio de que o médico que faz o pré-natal tem que ser o mesmo que faz o parto. A mulher tinha que ir para o hospital na hora que começasse a sentir as contrações e ter a criança com o médico que estiver lá. Tirar o médico dos seus outros afazeres para correr para um hospital realizar o parto de uma paciente acaba contribuindo para a prática da marcação das operações cesarianas. Na maternidade, por exemplo, temos médico, obstetra, pediatra e anestesista de plantão 24h. Quando alguém chega sentindo as contrações, vamos esperar todo o processo porque sempre haverá uma equipe pronta para atuar no parto na hora em que for necessário. Mas isso não é de interesse dos convênios, eles preferem marcar para o médico chegar ao local na hora de trabalhar e não pagar o plantão para a equipe ficar lá aguardando o paciente”, conta o diretor geral da maternidade.
Muitas mães também preferem a cesariana por ser um processo menos dolorido e mais rápido, o que evita o desgaste da família na expectativa de conhecer o mais novo membro. Mas também existem aquelas que preferem os benefícios do método natural. É o caso da mãe do recém-nascido Eduardo. Ele é o terceiro filho de Cleuza Justino, que não quis saber de anestesia na hora de escolher a forma como iria ter o filho. “Com o parto normal a gente se recupera mais rápido”, justifica ela.
O Brasil é um dos campeões mundiais em número de cesarianas. O estado do Rio de Janeiro não é exceção. Por isso o Ministério da Saúde está em campanha para incentivar o parto normal. O Hospital Maternidade oferece serviços públicos de orientação para gestantes. Através do curso de gestantes, que acontece duas vezes por semana, as futuras mamães recebem orientações sobre a hora do parto, como relaxar para tornar o parto mais fácil, os cuidados que deve ter com o bebê e até mesmo como fazer o planejamento familiar e evitar outra gravidez no futuro. A maternidade de Nova Friburgo recebeu o título de Hospital Amigo da Criança. Desde então, a primeira amamentação acontece logo na primeira hora do nascimento. Assim que o parto acontece, o bebê é higienizado e já vai para o colo da mãe mamar.
Parto natural dói?
Em três meses a reportagem de A VOZ DA SERRA acompanhou oito grupos, cada um com 12 gestantes. Setenta por cento delas queriam fazer o parto normal, apesar de ainda ser muito cultural o medo da dor na hora do parto. Sete, oito, nove meses de gravidez, e a estudante Thaís Andrade já se sente no limite. O bebê pesa quatro quilos e pode nascer a qualquer momento. “Não estou agüentando mais. Se for possível escolher o parto, ainda não sei pelo que irei optar. O pessoal diz que na cesárea não pode estar andando, não pode estar falando, porque senão a barriga incha e doem mais os pontos, então acho que vou preferir normal”, comenta ela.
Mas essa preferência é minoria entre as mulheres. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil ocupa o segundo lugar no mundo em número de cesarianas. Só perde para o Chile. Do total de partos realizados no país, 43% são cesáreas. A recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) é que esse número chegue a 15%. Na maternidade pública de Nova Friburgo os médicos conversam com as gestantes, insistem na importância da amamentação e esclarecem a dúvida que quase toda grávida tem. “Eu queria saber se o parto normal dói muito”, perguntou uma gestante.
O médico Ostwald dos Santos Filho diz que a dor é relativa. “Muitas pessoas dizem que sentem uma dor muito forte, mas isso vai do preparo de cada um. Durante o pré-natal, o profissional pode fazer um preparo para que essa dor seja bem menor ou quase nenhuma”, respondeu ele. Para um parto menos doloroso, são utilizadas algumas técnicas de relaxamento para tranqüilizar as grávidas. E, quando a mãe sente que chegou a hora, ela vai caminhando até a sala de parto. Isso ajuda a reduzir a ansiedade e facilita o nascimento do bebê. “A paciente fica mais tranqüila, o trabalho de parto evolui gradativamente melhor, e ela chega ao parto mais calma, mais relaxada”, destacou Ostwald.
Priscila acabou de ter neném, saiu há poucos minutos da sala de parto onde teve o filho pelo processo natural. “Foi parto normal e correu tudo bem. Já estou amamentando meu filho e não estou sentindo mais nada”, contou a jovem. Entre as dúvidas das gestantes está o parto normal ou a cesariana. Apesar da decisão ser do médico, que leva em conta fatores de risco, as gestantes têm suas preferências. Lílian já passou pela experiência do parto normal. Na época a companheira de quarto dela preferiu fazer cesariana. “O parto por cesariana não tem posição, a alimentação também não pode a qualquer momento. Eu fiquei ajudando ela sempre que podia”, comentou a dona-de-casa Lílian Aguiar.

Lei do acompanhante deve entrar em vigor na maternidade até o fim do ano

A Lei nº 11.108, de 7 de abril de 2005, garante às parturientes o direito à presença de acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), da rede própria ou conveniada. Para isso, um curso para acompanhantes vai ser oferecido na maternidade. Só vai poder acompanhar todos os passos quem participar do curso, que dará informações de todo o processo. “Espero que a presença dos acompanhantes acabe com a série de reclamações de maus tratos comuns no serviço público de saúde. O problema é que geralmente o processo do parto natural é demorado e dolorido, mas muita gente pensa que por não ter ninguém da família junto, cuidando, é porque a equipe médica está negligenciando o caso e não dando o atendimento necessário”, diz o diretor geral da maternidade.
A maternidade já funciona com esquema de alojamento conjunto onde mãe e filho ficam no mesmo quarto, lado a lado. Um albergue também foi montado para receber as mães e os bebês que nascem prematuros. No local o método canguru é aplicado. Segundo o diretor geral, a questão da mulher poder escolher e convidar alguém para assistir ao parto é complicado. “A Anvisa faz as leis de cima para baixo, sem conhecer as realidades de hospitais de médio e pequeno porte, como o nosso. Aqui temos uma sala de operação com duas mesas, mas não temos espaço para levarmos um acompanhante. Fora que muitas vezes temos que parar o procedimento para dar assistência a quem está assistindo ao parto e passa mal. Da mesma forma que cria normas, a Anvisa também deveria se preocupar em equipar melhor os hospitais públicos”, destacou Ostwald.
A Anvisa também determinou a compra de equipamentos que são utilizados em alguns partos, como, por exemplo, a barra fixa que alivia o peso da barriga e a bola, que serve para massagear as costas. Ostwald dos Santos Filho informou que irá preparar um documento solicitando à Secretaria de Saúde as adaptações necessárias no espaço e os equipamentos que devem ser comprados para a adequação às novas normas da Anvisa.

Comandada pelo diretor geral Ostwald dos Santos Filho, a equipe da maternidade conta com a obstetra Vera Barcelos (esquerda) e com a pediatra Cláudia Duarte


O atual centro cirúrgico tem duas mesas separadas por um biombo. O espaço hoje não comporta a presença de um acompanhante para assistir ao parto

Fonte: http://www.avozdaserra.com.br/noticias.php?noticia=995

sábado, 5 de julho de 2008

Eu acho que eu vi um gatinho... evoluindo


A dicotomia entre dog persons e cat persons já virou padrão em língua inglesa: metade da humanidade teria uma identificação instintiva com os cães, enquanto a outra metade seria atraída da mesma forma visceral por gatos. Se esse é mesmo o caso, eu sou uma dog person, sem dúvida. Que os donos desses bichos não me crucifiquem: sempre senti um vago arrepio na espinha (vulgo caganeira) na presença de felinos grandes ou pequenos. O irmão gêmeo da desconfiança, no entanto, é o fascínio. O magnetismo inspirado pelas patas com almofadinhas e os olhos amarelados e oblíquos é inegável. O que me dá uma ótima desculpa para fazer as pazes com vocês, cat persons do mundo todo, relatando como o bichano no seu tapete, bem como as onças-pintadas, suçuaranas e jaguatiricas das selvas, apareceram e evoluíram.

Para começar, a velha briga de gato e cão (invertendo a ordem normal dos fatores em nome da perspectiva felinocêntrica) não passa, originalmente, de um conflito familiar. Como carnívoros que são (uso a palavra no sentido mais preciso, relativo à ordem de mamíferos chamada de Carnivora em latim, e não na acepção mais ampla de “bichos que comem carne”), felídeos e canídeos são parentes mais próximos entre si do que nós somos aparentados a qualquer um deles. Pode-se mesmo dizer que eles são variações do mesmo tema, apesar do aspecto superficialmente diferenciado.

A segunda coisa a ter em mente sobre as origens felinas é que a incrível semelhança física e comportamental entre bichanos domésticos e seus parentes selvagens se explica facilmente: todos os gatos, grandes e pequenos, são uma invenção evolutiva recente – aliás, bem mais recente que o grupo dos grandes macacos, ao qual pertence o homem. Enquanto criaturas como nossos primos chimpanzés já estavam por aí há uns 20 milhões de anos, as melhores estimativas usando dados de DNA e fósseis apontam que o ancestral comum de todos os felídeos vivos hoje andou por aí há 11 milhões de anos, provavelmente em algum lugar da Ásia tropical.

Um pacote que deu certo
É em parte graças a essa origem relativamente nova que se deve a grande conservação de forma e comportamento nas quase 40 espécies de gatos conhecidas. O biólogo Eduardo Eizirik, pesquisador da PUC-RS e co-autor de um monumental “álbum de família” dos felinos em 2006, disse-me certa vez que outro fator por trás dessa estabilidade é o sucesso: em time que está ganhando não se mexe, e os gatos teriam chegado a uma fórmula biológica na qual qualquer alteração séria tornar-se-ia um passo para longe da perfeição.

A idéia é tentadora. Parece casar bem com o fato de que os felinos são predadores poderosos em quase todos os ambientes terrestres do mundo moderno, das florestas equatoriais ao gelo da Sibéria e do Alasca (ocupado por tigres e onças-pardas, respectivamente). A desvantagem – para os cientistas, claro – é que essa expansão rápida por toda a Terra “apaga” parcialmente os sinais de parentesco entre os subgrupos de felídeos, contou-me Eizirik, de maneira que fica difícil entender com precisão a história evolutiva das espécies do grupo.

A boa notícias é que é mais fácil recolher tais pistas no acúmulo de mutações do DNA felino. Alterações na seqüência das “letras” A, T, C e G (os nucleotídeos, unidades químicas básicas da molécula da hereditariedade) ajudam a agrupar os felídeos em unidades menores de parentesco. E a velocidade estimada dessas mudanças traz um “tique-taque” do relógio evolutivo o qual, por sua vez, leva-nos a uma data para os eventos de separação entre linhagens, calibrada com a ajuda de fósseis dos mais antigos ancestrais conhecidos de cada subgrupo.

O que as análises conduzidas pelo pesquisador da PUC e seus colegas mostram é que o primeiro grupo de felinos a se separar dos demais é o dos chamados grandes gatos, ou gatos que rugem: leões, tigres, onças, leopardos e os menos conhecidos leopardos-das-neves e leopardos-nebulosos (você pode ver um belo exemplar de leopardo-das-neves, animal símbolo do Cazaquistão de Borat, na foto acima). Esse grupo se separou muito cedo dos demais felinos, há cerca de 10,8 milhões de anos, segundo as melhores estimativas.

É interessante notar que, segundo o grupo de Eizirik, nossas onças-pintadas são primas mais próximas dos leões do que os tigres. Além disso, as suçuaranas ou onças-pardas (uma delas aparece na foto abaixo) não são onças coisíssima nenhuma: na verdade, elas e seus parentes mais chegados, os velozes guepardos africanos, teriam divergido da grande família felina há 6,7 milhões de anos, estando, na verdade, relativamente perto dos gatos domésticos.

Se você está se perguntando onde foram parar os famosos tigres-de-dente-de-sabre nesse amontoado de galhos, saiba que essa é a pergunta errada: os dentes-de-sabre (jogue fora o “tigre” do nome, por favor) não são felídeos verdadeiros. Tanto os genes quanto os fósseis concordam que essas criaturas pertencem a um ramo paralelo de carnívoros, que divergiu da linhagem que levaria aos gatos de verdade bem antes que o ancestral comum deles tivesse surgido.

Caçando ratos em Chipre
E quanto aos tataravós diretos dos nossos próprios bichanos? Bem, há poucas dúvidas de que a linhagem deles tenha surgido há uns 3,5 milhões de anos, e que a espécie diretamente por trás dos gatos lambedores de leite de hoje em dia seja a Felis sylvestris lybica, bicho comum nas estepes do Oriente Médio e do norte da África quando surgiam as primeiras civilizações humanas.

Gatos são bichos independentes por natureza, e a história de como eles foram integrados ao convívio humano parece, curiosamente, seguir esse padrão. Enquanto praticamente todos os animais domésticos do Ocidente foram amansados pela primeira vez na região que vai da Palestina ao Iraque, os primeiros indícios de felinos domesticados vêm da ilha de Chipre, tendo cerca de 9.000 anos. Ali, alguém quis ser enterrado com seu querido bichano, a julgar pelo conteúdo de um túmulo cipriota dessa época.

É possível que os inícios da agricultura e do acúmulo de grãos, um verdadeiro ímã para os roedores, tenham também levado os humanos a valorizar e mimar os gatos que apareciam na vizinhança de seus antigos silos para caçar camundongos. Nesse ponto a domesticação dos felinos também é sui generis, já que quase todos os bichos que transformamos em nossos companheiros são herbívoros ou onívoros que vivem em bandos. Os gatos, predadores solitários, fogem a essa regra. Mesmo assim, um indício de que eles mantêm sua natureza independente é o fato de eles entenderem muito menos palavras humanas do que os cães, conforme experimentos demonstraram.

Antes de encerrar o presente passeio pela evolução felina, não custa lembrar um detalhe óbvio, mas importante. A própria variedade de raças e formas que a intervenção humana conseguiu engendrar a partir dos bichanos originais é uma prova eloqüente de como a evolução age em contextos mais naturais. Bastam algumas décadas de cruzamento guiado para produzir bichos tão diferentes quanto um persa e um siamês – mais distintos entre si do que duas espécies diferentes de gato-do-mato, por exemplo. Se a necessidade e o capricho humano criou essa diversidade a partir do mesmo ancestral, fica difícil duvidar que a natureza tenha feito a mesma mágica com milhões de anos ao seu dispor.

Fonte: http://www.visoesdavida.globolog.com.br/

domingo, 29 de junho de 2008

Um novo olhar sobre o gato

Com seu ar enigmático, ele já foi associado a deuses e demônios ao longo da história. Hoje, após milênios de convivência com o homem, o bichano é o animal de estimação mais adaptado à vida moderna e um aliado considerável na hora de cuidarmos da nossa saúde

Paola Bello


Dona Luiza*, 65 anos, ficou viúva neste ano. Para piorar, não podia contar com o apoio dos filhos, que viviam distantes dela, física e afetivamente. Por conta disso, além de tremores nas mãos, passou a ter problemas estomacais, enxaquecas e dores musculares. Mesmo nesse estado, ela teve disposição para recolher um gato que fora atropelado na rua onde mora. O que era apenas um ato de solidariedade acabou virando uma estratégia que, em vez de uma vida, pode estar salvando duas.

Entre as idas e vindas ao veterinário, ela e o gatinho vira-lata começaram a participar de sessões de zooterapia. Nelas, percebeu que, ao assumir a responsabilidade de manter o animal vivo e bem cuidado, dona Luiza exigia saúde e bem-estar de si mesma. Em conseqüência, conseguiu purgar a perda do marido e resgatou o relacionamento com os filhos.

Casos como esse entram para a contabilidade que está ajudando os felinos a atenuar o estigma de interesseiros e anti-sociais. Com isso, ganham mais espaço nos lares. No Brasil, eles são um para cada 12 habitantes - há um cachorro para cada 6 brasileiros. Entretanto, veterinários, zooterapeutas e o mercado de alimentos para animais apostam na tendência de o gato se tornar o animal do futuro. Pudera, as famílias estão se tornando menos numerosas, os lares estão cada vez menores, e as pessoas estão passando muito menos tempo em casa. Se há um bicho que consegue se adaptar bem a esse quadro, é o gato, que vem dividindo o ambiente com os humanos há muito tempo.

Toma lá, dá cá Apesar do temperamento de caçador solitário, o gato aprecia a proximidade com os humanos. E, claro, sabe que vai sobrar comida nesse açougue em Marrocos

Quando o homem começou a procurar um local para chamar de lar, lá estava o gato. Logo que desenvolveu a agricultura - entre 10.000 e 12.000 a.C. -, deixou de ser nômade e começou a estreitar os laços de amizade com os felinos. E tudo teve início como uma troca de favores: o homem passou a armazenar alimento; com a estocagem de grãos, vieram os roedores, que, por sua vez, atraíram os gatos. O mais antigo fóssil que comprova essa amizade é de 9.500 a.C. Descoberta em 2004, a ossada de um gato selvagem dividia a tumba com a de um humano. O achado derruba a tese de que os egípcios teriam sido os pioneiros na domesticação dos felinos, em aproximadamente 2000 a.C., já que o fóssil foi encontrado na ilha mediterrânea de Chipre.

Pelo tamanho da ossada, o primeiro amigo felino não devia ter mais de 8 meses de vida, o que indica que teria sido morto para acompanhar a dona após a morte. Porém, o indício mais forte da amizade consiste no fato de que, nenhum gato, de espécie alguma, é nativo da ilha de Chipre. Para a existência desse fóssil, a hipótese mais provável é a de que os próprios moradores da ilha viajaram cerca de 70 quilômetros, até a Turquia, onde adquiriram o animal e o levaram para a vila.

"Pesquisando os componentes genéticos de gatos selvagens da Europa, da Ásia, da África e do Oriente Médio, concluímos que realmente a domesticação começou na ilha de Chipre, com gatos provenientes do Crescente Fértil [região entre os rios Nilo, Tigre e Eufrates, onde iniciou a agricultura]", afirma Stephen O'Brien, chefe do laboratório de diversidade genômica no Instituto Nacional do Câncer, em Maryland, EUA.

De deuses a demônios
Séculos de convivência - e o ar enigmático dos felinos - fizeram com que, além de aliados, os gatos passassem a ser considerados um canal para diálogos com o divino. "No Antigo Egito, acreditava-se que eles tinham propriedades espirituais e que eram capazes de se comunicar com divindades", diz Elaine Evans, professora da Universidade do Tennessee e curadora do museu McClung (no campus da universidade, em Knoxville), que desde 2001 abriga uma exposição de gatos mumificados.

No início, os egípcios cultuavam os leões. O gato selvagem, que mais parecia um leão em miniatura, começou a ser introduzido na mitologia. Assim, os deuses passaram a ganhar atributos e temperamentos ainda ligados aos leões, mas adaptados ao comportamento dos bichanos. "O gato representa a civilização, relação feita a partir da agricultura. Também representa o Sol, por ficar bastante tempo deitado na areia se bronzeando. Essas características foram atribuídas ao deus-sol Rê, metade homem, metade gato", afirma Antonio Brancaglion Jr., egiptólogo e professor no Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Quem mandou? A Inquisição condenou os gatos à morte. A Europa pagou caro por isso, pois, proliferando à vontade, os ratos disseminaram a "peste negra"

Com a popularização dos rituais fúnebres envolvendo a mumificação, os gatos passaram a acompanhar seus donos até a eternidade. A mais antiga múmia de gato conhecida data de 1.500 a.C. Apenas na cidade de Beni-Hassan, na margem leste do rio Nilo, mais de 300 mil múmias felinas foram encontradas. Também há registros de cemitérios gigantescos nos arredores do Cairo, com mais de 4 milhões de gatos mumificados.

Essa aura de adoração não ficou enterrada nas tumbas egípcias. Séculos depois, nas comunidades gregas e romanas, eram comuns imagens e cultos às deusas Háthor e Bastet. Baseados nessas duas divindades, os gregos também transferiram ao gato alguns atributos de Afrodite, a deusa do amor e do prazer sexual, e associaram a agilidade e a rapidez dos bichanos para a fuga a Ártemis, a deusa da caça. Da mesma forma, os romanos associaram a feminilidade felina à deusa Diana, da caça e da fecundidade, e relacionavam o bichano à deusa Vênus, da sensualidade e das emoções maternas.

Já na era cristã, a Inquisição veio para pôr um fim na paz entre humanos, gatos e divindades. "O bichano só começou a ser visto de forma negativa a partir do cristianismo, na Idade Média. Essa ligação maligna foi feita justamente porque era um animal atribuído aos deuses pagãos. Com a Inquisição, tudo que não era da religião católica era do mal e deveria ser queimado na fogueira", afirma Brancaglion. Profissões que tinham qualquer ligação com o gato também foram condenadas. As parteiras, por exemplo, usavam a deusa Bastet como símbolo e, por isso, foram tachadas de bruxas. No século 13, a perseguição foi ainda maior. Com a promulgação de bulas nas quais condenava os gatos, especialmente os de cor preta, associado ao satanismo, o papa Gregório IX determinou a exterminação de centenas de felinos.

A humanidade pagou caro por esse destempero da Inquisição. Com a redução da população felina, os ratos tomaram conta do pedaço. Falta de saneamento, condições precárias de higiene e tráfego de navios infestados de roedores ajudaram a deixar o século 14 marcado na Europa pela pandemia da peste bubônica. Transmitida através da picada de pulgas infectadas por ratos doentes, a "peste negra" dizimou cerca de um terço da população européia.

Se sob o catolicismo os gatos conheciam dias de cão, na cultura islâmica há relatos de que a vida de Maomé teria sido salva por seu felino de estimação. "Conta-se que o profeta estava em casa, e, sem que ele percebesse, uma cobra se aproximou para atacá-lo. Seu gato conseguiu matá-la antes do bote. Também fala-se que o profeta o teria acariciado na cabeça e o abençoado, e que, por isso, a partir daquele dia, os gatos começaram a cair sempre em pé", diz Brancaglion.

A amizade felina também influenciou a cultura nipônica. No Japão, o gato Maneki-Neko (aquele das boas-vindas, com uma das patinhas levantada) é símbolo de boa sorte. Reza a lenda que, há muitos anos, esse gato estava parado na frente do templo de Gotoku-ji. Ao ver um senhor feudal, teria acenado e atraído o homem para dentro, livrando-o de um raio que cairia logo depois. A partir desse dia, Maneki-Neko passou a ser considerado a encarnação da deusa da misericórdia.

O SWING DO BICHANO
Linguagem corporal dá dica do que se passa no coração e na mente do animal
1>>>Balançar a cauda - Ao fazer isso, um gato não está demonstrando alegria. Muito pelo contrário. Significa que está incomodado com alguma coisa ou pronto para o ataque
2>>>Massagear - O gato pressiona superfícies e movimenta as patas. Em geral, demonstra satisfação e contentamento. Filhotes fazem isso enquanto mamam
3>>>Rolar - Indica tanto que o gato não tem a intenção de atacar quanto que está submisso, embora a submissão felina indique mais afeição que obediência
4>>>Esfregar-se - Expressa afeição e demarcação de território. O contato quase direto com a pele faz com que o cheiro do bichano fique impregnado onde quer que ele se esfregue
5>>>Movimentar orelhas - A posição dos órgãos indica a vontade de participar das situações. Altas e viradas na direção do que está acontecendo, indicam interesse. Baixas e viradas para o lado oposto do movimento ou som demonstram indiferença
6>>>Miar - Há dezenas de miados. Variam de acordo com a situação e a intenção. Os mais longos e crescentes costumam indicar felicidade, os mais agudos e estridentes podem ser sinal de uma briga com outro gato
7>>>Ronronar - Quando afagados, os gatos ronronam para demonstrar deleite e reciprocidade
8>>>Morder - Serve para demonstrar afeto, agredir ou brincar. A que indica afeto costuma ser a mais delicada e ocorre enquanto o gato recebe carinho ou sente prazer com a companhia


Os mutantes
Os gatos não contam apenas com aspectos etéreos como justificativa para terem virado um dos animais de estimação mais comuns no mundo. A ciência também tem seu papel. As mutações genéticas favoreceram o aumento na aceitação do bichano. Por meio de reproduções monitoradas, novas raças são desenvolvidas. "Há gatos como os da raça sphynx, que não possuem pêlos. Essa mutação foi mantida intencionalmente e virou uma opção para pessoas alérgicas", diz a médica veterinária Maria de Fátima Martins, professora na USP e especialista em zooterapia.

As mutações têm se mostrado eficazes na hora de mudar a forma, mas ficam devendo quanto ao conteúdo. Para Nicholas Dodman, especialista em comportamento animal e autor do livro "The Cat Who Cried for Help" ("O Gato que Gritou por Socorro", ainda sem tradução para o português), apesar de todo o histórico de convívio, nenhuma raça foi totalmente domesticada. "A razão pela qual os gatos nos toleram é que eles são criados por humanos desde pequenos. O período crítico de socialização é entre duas e sete semanas, fase na qual são moldados por nós. Gatos que viveram esse período sem contato com humanos nunca se sentirão confortáveis na presença de pessoas."

Já para a professora primária Kathy Hoopmann, autora de uma série de livros sobre comportamento infantil, a amizade com os gatos é possível, mas exige cuidados. Em seu livro "All Cats Have Asperger Syndrome" ("Todos os Gatos Têm Síndrome de Asperger", sem tradução para o português), ela compara os bichos a portadores da síndrome, caracterizada pela dificuldade no convívio social, mas sem afetar a parte cognitiva. "Pessoas com Asperger têm problemas em quatro áreas principais: comunicação, interação social e emocional, sentidos sensoriais e adaptação a mudanças. Os gatos dividem os mesmos traços. Não são animais sociáveis, tendem a escolher 'amigos' com cuidado."

MÁQUINA MORTÍFERA
Visão, audição e olfato aguçam o instinto fatal dos bichanos: trucidar presas
ORELHAS>>>As orelhas dos gatos são instrumentos de audição e de equilíbrio. Enquanto humanos possuem seis músculos auriculares, os gatos têm 30, o que permite que movam as orelhas de forma independente. Isso facilita a identificação das fontes sonoras

ÓRGÃO DE JACOBSON>>>Como outros mamíferos e a maioria dos anfíbios, os gatos possuem órgão vomeronasal, ou de Jacobson. Ele auxilia na percepção de odores e feromônios. Como o órgão fica no céu da boca, o gato contrai nariz e lábios para aspirar com mais intensidade

OLHOS>>>Adeptos de hábitos noturnos, os felinos possuem visão privilegiada. Não enxergam em escuridão total, mas vêem perfeitamente em ambientes com até um sexto da luz necessária para a visão humana. Isso se deve a uma membrana localizada atrás da retina. Ela age como um espelho e aumenta a reflexão da luz dentro do olho, ampliando a capacidade de visão

CAUDA>>>Cerca de 10% dos ossos dos gatos estão nela. Observa-se em alguns felinos, como o guepardo, que a posição da cauda favorece movimentos durante as caçadas. Tanto para ganhar velocidade (quando alinhada ao corpo, diminuindo a resistência do ar), quanto no equilíbrio (esticada para o lado oposto ao de uma curva), a cauda favorece a manutenção do equilíbrio sem perda de velocidade

NARIZ>>>Enquanto humanos têm cerca de cinco milhões de células receptoras, os gatos contam com 19 milhões. Associado à visão e à audição, o olfato é uma importante arma para identificar presas e inimigos a distâncias consideráveis

BOCA>>>Carnívoros, os gatos possuem dentes desenvolvidos para matar e comer as presas. Os caninos são bem maiores que os demais, e os molares são pontiagudos, para destroçar a carne em pedaços fáceis de engolir. Na fase adulta, o gato possui 30 dentes permanentes. A língua é bem mais áspera e menos úmida que a de um cão. Essa característica ajuda a desprender com mais facilidade a carne dos ossos das presas

BIGODES>>>Gatos possuem alguns pêlos diferenciados, mais longos e espessos, chamados de vibrissae ou pêlos táteis. Esses "bigodes" estão localizados na face, nas sobrancelhas e atrás das patas dianteiras. São compostos por material inerte e não contêm nervos, mas possuem células receptoras associadas a eles. São diferenciados dos outros pêlos do animal principalmente por possuírem cápsulas sangüíneas ligadas aos folículos, próximos à base de nascimento. Por serem extremamente sensíveis, esses pêlos auxiliam tanto na identificação de alguma presa quanto na percepção de espaço e direção

UNHAS>>>Para eles, a principal utilidade das unhas é a defesa. Além de utilizá-las para um ataque ou caçada, os felinos desenvolveram, ao longo da evolução, a capacidade de retraí-las. Essa característica evita que se desgastem com o caminhar e ajuda a mantê-las sempre afiadas

Mesmo com essas peculiaridades, a amizade entre humanos e felinos é totalmente possível. Quando feita gradativamente, respeitando os limites dados pelo animal, a aproximação pode fazer dos gatos bichos dóceis e sociáveis. Uma forma fácil de interação é a observação da linguagem corporal. "Esfregar a cabeça, por exemplo, é um sinal de afeto, do mesmo modo que o piscar enquanto olha para alguém. Miados mais curtos são sons de felicidade, enquanto que pupilas dilatadas indicam medo. Se um gato estiver com os pêlos arrepiados e com a cauda ereta, indica medo e potencial agressão", diz Dodman.

Segundo Alexandre Rossi, especialista em comportamento animal e autor de livros com dicas de comportamento e adestramento, é importante lembrar que gatos são bichos de comportamento peculiar. "Há pessoas que levam um gato pra casa e esperam que ele se comporte como um cachorro, que não suba nos lugares e que obedeça a todas as ordens", afirma. No livro "Os Segregos dos Gatos" (recém-lançado pela Editora Globo), Rossi decifra algumas características específicas dos felinos. "O gato não obedece a uma ordem simplesmente por obedecer. Ele precisa confiar na pessoa e ter uma recompensa pela obediência. Enquanto os cães possuem predisposição natural para receber ordens, já que evoluíram de bandos em que a hierarquia era fundamental, gatos sempre foram caçadores solitários, nunca dependeram do grupo para sobreviver." Rossi também reforça a importância da educação do animal sem violência. "Cachorros são capazes de tolerar a agressão enquanto são adestrados e ainda assim continuam amando seus donos. Gatos, não."

A paciência com os hábitos felinos podem trazer recompensas para o dono. A primeira delas seria para a saúde. Segundo Dodman, os gatos ajudam a aliviar alterações negativas de humor em um nível equiparado apenas à companhia humana. Também auxiliam a diminuir a pressão arterial e o colesterol.

"ELES NÃO SÃO ANTIPÁTICOS, MAS INSTINTIVOS"
Para Alexandre Rossi, autor de "Os Segredos dos Gatos", obsessão pelo controle do território faz com que muitos pensem que os bichanos são egoístas e que se importam mais com a casa do que com os donos
De um lado, os gatos são considerados auto-suficientes a ponto de ignorar seus donos. Por outro, há quem defenda que eles são carinhosos como os cães. Para mostrar quem tem razão nessa história, Alexandre Rossi está lançando o livro "Os Segredos dos Gatos" (Editora Globo). Especialista em psicologia animal e autor de best sellers sobre cães, ele escreveu uma obra que, além de assuntos como características físicas e comportamentais e cuidados com alimentação e higiene, traz dicas sobre adestramento.

Galileu: O perfil do dono de animal de estimação vem mudando. Como os gatos têm acompanhado isso?
Alexandre Rossi:
O gato é considerado o animal do futuro. Ele é capaz de se adaptar com muito mais facilidade à vida moderna. Hoje temos famílias pequenas, casas e apartamentos menores, e passamos grande parte do tempo fora do nosso lar. O cachorro sente muito a solidão; o felino, não. A pessoa pode trabalhar o dia todo, viajar no fim de semana, e o gato não sente tanto. Geralmente as pessoas que gostam mais de bichanos são as que querem um animal mais independente, que não seja tão grudado como o cachorro. Além disso, ele inspira mais liberdade, mais elegância e mais naturalidade justamente por não ser um animal tão domesticado.

Galileu: Há quem diga que os gatos só se aproximam das pessoas por interesse.
Rossi:
Eu discordo. Há pessoas que acham que o gato se importa muito mais com a casa onde ele vive do que com os donos. Isso ocorre porque ele é obcecado por ter controle do território e, enquanto isso não acontece, ele fica incapaz de demonstrar afeição e carinho. Não há nada de antipatia, mas de instinto. No ambiente natural, o gato é predador, mas também é presa. Mesmo em casa, ele tem de saber pra onde ele pode fugir se acontecer algum problema e quais são as ameaças ao redor. Enquanto ele não domina o território, qualquer um que tentar impedi-lo de alguma ação poderá ter uma resposta agressiva.

Galileu: O que uma pessoa precisa saber antes de levar um gato para casa?
Rossi:
Primeiro, que o gato é um animal que explora os ambientes tridimensionalmente. Ele sempre vai subir na pia, na geladeira, no microondas, e é importante que ele tenha esse acesso. Não adianta ter um gato e querer limitá-lo ao chão, como se fosse um cachorro. Muitos também pulam janelas, o que obriga o dono a colocar telas. Também é importante lembrar que alguns são bastante barulhentos durante o cio. A gata siamesa é a que mia mais alto nesse período. E é necessário também saber se a pessoa que pretende ter o gato não tem alguma reação alérgica à proteína que existe na saliva dele.

Galileu: Como no caso dos cães, há diferenças de comportamento entre as raças?
Rossi:
O comportamento e a estrutura do gato não são tão variados quanto os dos cães. O siamês, por exemplo, costuma ser mais agitado e barulhento, enquanto o persa é mais tranqüilo e silencioso. Geralmente, os mais ativos acabam, por tentativa e erro, descobrindo e aprendendo mais coisas. Por isso, são considerados mais inteligentes.

Galileu: Quais são os principais desafios na hora de educar um gato?
Rossi:
O gato é mais difícil de ser treinado, acima de tudo, porque ele deve ser educado em um ambiente que conheça. Você não pode pegar um gato e levar pra um lugar onde haja um treinador. Enquanto ele não estiver adaptado ao ambiente, não vai prestar atenção nas pessoas. Também é difícil porque carinhos e brinquedos não costumam ser boas recompensas para o gato; o petisco é mais usado, mas ele demora mais para comer, o que não permite tantas repetições de exercícios de treinamentos quanto com cachorros.

O gato não consegue ser educado com reforços negativos. Com cachorros, há reforços como colocar um enforcador e apertar o traseiro pra ele sentar. Se isso for feito com o gato, ele vai passar a não gostar da pessoa que o treina. Por outro lado, por meio do reforço positivo, o gato vai se aproximando, se tornando cada vez mais sociável. O cachorro ainda tolera a agressão porque depende muito do ser humano e é capaz de, mesmo assim, continuar amando o dono. O gato, não.

CONCORRA
Quer saber mais sobre como lidar com os bichanos que você tem - ou planeja ter - em casa? Então, participe do nosso concurso cultural e responda à pergunta: "O gato pode ser o melhor amigo do homem? Por quê?" em cinco linhas e concorra a um exemplar do livro "Os Segredos dos Gatos" (Ed. Globo). O texto deve ser enviado até o dia 31 de julho para o e-mail galileu@edglobo.com.br, com a frase "Promoção Cultural Galileu - Gatos" escrita no campo "assunto" do e-mail. Veja o regulamento completo em www.galileu.globo.com

Zooterapia: Cuidar de um bichano vira um desafio positivo para idosos. A manutenção do animal é uma motivação para esticar a própria vida

Na alegria e na tristeza
Introduzida no Brasil entre o final da década de 1940 e início da década de 1950 no tratamento de pacientes com esquizofrenia, a zooterapia, ou terapia assistida por animais, teve como seu primeiro colaborador o gato. Hoje, vários outros animais foram incluídos na prática. "O gato é mais sutil, mais reservado. De uma maneira geral, ele mede mais as conseqüências e respeita mais os limites dados pela pessoa. E isso influencia muito nas terapias", afirma psicóloga e veterinária Hannelore Fuchs.

Trabalhando com zooterapia há 15 anos, em São Paulo, ela coleciona casos bem-sucedidos. Uma vez por mês, Hannelore e a gata Frida visitam uma escola de educação especial em São Paulo. Com crianças, o foco do trabalho e dos estudos está ligado à cognição, à conduta e ao desenvolvimento físico e motor. Há casos de crianças com dificuldade em abrir as mãos que desenvolveram ou retomaram esse controle devido ao esforço feito para poder acariciar um gato.

Desde 1999, a professora Maria de Fátima estuda a interação entre homem e animais. "Com a zooterapia, observamos que essa interação melhora o ambiente social, a qualidade de vida do ser humano e, conseqüentemente, do animal." Segundo ela, o gato na zooterapia funciona como uma ponte entre paciente e terapeuta. No consultório de Hannelore, os animais ficam soltos e transitam entre uma consulta e outra. "Dependendo da afeição do paciente pelo gato, ele começa a fazer parte da consulta", diz a psicóloga

Assim, casos como o de dona Luiza, a mulher do começo desta reportagem, estão se tornando cada vez mais comuns em asilos e entre idosos abandonados. "Para eles, o gato vira um desafio positivo", afirma Hannelore. "Gerenciam a rotina do animal, sentem-se responsáveis pela vida do bicho. Isso faz com que o idoso deixe um pouco o papel de ser cuidado e passe a ser o 'cuidador'. Por meio do convívio com o gato, a vida do idoso passa a ter uma motivação maior."

* A entrevistada pediu para não ser identificada

VÁ FUNDO
>>>Para ler

•"All Cats Have Asperger Syndrome", Kathy Hoopmann. Jessica Kingsley Publishers. 2006
•"The Cat Bible: Everything Your Cat Expects You to Know", Tracie Hotchner. Gotham Books. 2007
•"Entenda o Seu Gato", Bruce Fogle. Editora Globo. 2007
•"Gatos: a Emoção de Lidar", Nise da Silveira. Léo Christiano Editorial. 1998
•"Os Segredos dos Gatos", Alexandre Rossi e Paula Itikawa. Editora Globo. 2008
BALAIO DE GATOS
À noite, todos podem ser pardos, mas diferença é o que não falta entre os bichanos. Descubra aquele que tem a sua cara

Fonte: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG84040-7943-204-1,00-UM+NOVO+OLHAR+SOBRE+O+GATO.html

Médico brasileiro desenvolve tratamento para combater doenças degenerativas nos EUA uma grande esperança para quem tem ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica)

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